Poema 49 • página 73
O homem do buraco
abrem as terras e artérias e
irrecuperável a vida vaza
para dentro esgalhando-se
veias e raízes penetrando a
matéria orgânica pedaços de folhas
caules cascas grilos e cigarras
mais fundo que o húmus está o homem
do buraco o último
do seu povo massacrado
por fazendeiros e grileiros
sozinho no meio do mato
resiste como folha que não cede ao inverno desastroso
a única espalhada ao longo do grande tronco da árvore
rapada juntar-se não é opção prefere a solidão já
atravessada por três décadas mesmo sozinho isolado no
meio do mato do bosque do arvoredo da boscagem do
dumo é possível sobreviver sem assentir gentilmente
ao gesto que doma destrói mata agride explora poluí da
cúpula dos culpados que jamais serão punidos
o homem do buraco
é o último guerreiro
da copa dos primeiros
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