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A Pele da Pitanga

Eugênia Uniflora (Jéssica Iancoski)

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A PELE DA PITANGA

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Página 1 do livro A Pele da Pitanga

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Página 1: A PELE DA PITANGA

A PELE DA PITANGA
EUGÊNIA UNIFLORA
(JÉSSICA IANCOSKI)

Página 2: Na vermelhidão de advérbios, carnívora talvez e

Na vermelhidão de advérbios, carnívora talvez e
vinda tão de dentro, a palavra nesse A pele da pitanga,
se apresenta escancarada e incisiva: vai escarafunchar
aqueles meandros mais escondidos, vai cutucar as
certezas ocas das vozes mansas e se esgueirar por
aqueles recônditos que, às vezes (para preservar con-
fortos) alimentam complacência e indiferença. Não
aqui, não a partir daqui, porque essa poesia é artefato
de denúncia e não teme expor questões que pulsam
pedindo atenção.
É preciso dizer, às pessoas perceptivas, que dese-
jam transformar percepções em ação, que a máxima é
a de que todos os tempos são de luta: reafirmar iden-
tidades, promover humanidade, instaurar políticas de
descolonização, proteger quem precisa de reconhe-
cimento, respeitar diferenças e vivências, denunciar
injustiças, apagamentos e a violência dos discursos de
poder. Nessa trajetória, contarmos com a Arte como
nossa aliada. Assim, sob a pele de Eugênia Uniflora,
é essa a proposta da poeta Jéssica Iancoski, que arti-
cula meios de reflexão para um estado de consciência,
visibilidade e cuidado.
E se rebela e se revolve a terra, e diz de esperança,
e desmascara sombras e matanças, lamenta num teor
poético que, ao mesmo tempo, ressuscita, empolga,
revigora nosso olhar. Uma poesia do grão, da semente,
da brotação. Uma poesia do céu, das estações da
terra, do alimento, dos corpos e da fertilidade. Pensar
caminhos, desde tudo que corresponde ao ancestral
até o presente – que sejam bonitos e dignos. Que
sejam poéticos. Ninguém mais Iracema, ninguém mais
levando o (nosso!) céu ̶ falemos agora e sempre de
Vidas. É ofício de poeta promover florescimentos. Pois
deixe-se, aqui, florescer.
LUCI COLLIN

Página 3: A PELE DA PITANGA

1
A PELE DA PITANGA
EUGÊNIA UNIFLORA
(Jéssica Iancoski)
2021| TAUP

Página 4: Copyright © 2021 by Jéssica Iancoski

Copyright © 2021 by Jéssica Iancoski
Direção editorial | Belise Campos e Mabelly Venson
Design de capa, projeto gráfico e diagramação | Jéssica Iancoski
Revisão e preparação | Silvana Guimarães
Suporte comunicacional | João Victor Soares
Suporte logístico | Sabrina Iancoski
Suporte institucional| Belise Campos
ÍNDICE PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO
I. POESIA: LITERATURA BRASILEIRA
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
JANAINA RAMOS – BIBLIOTECÁRIA – CRB-8/9166
I11a
Iancoski, Jéssica
A pele da pitanga / Jéssica Iancoski – Curitiba: Eu-i, 2021.
88 p.; 14 X 21 cm
ISBN 978-65-81362-19-5
1. Poesia. 2. Literatura brasileira. 3. Geopolítica ambiental. I. Iancoski,
Jéssica. II. Título.
CDD 869.91
Todos os direitos desta edição reservados à
Associação Toma Aí Um Poema
Avenida Paulista, 1636, Conj. 4, Pav. 15
01310-200 — São Paulo, SP — Brasil
www.taup.top
instagram.com/tomaaiumpoema
3ª edição, 1ª impressão
Tiragem 1500 exemplares

Página 5: TODAS AS INFORMAÇÕES CONSTANTES NESTA OBRA

TODAS AS INFORMAÇÕES CONSTANTES NESTA OBRA
SÃO DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DO AUTOR

Página 6: Página 6

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Página 7: Página 7

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Página 8: É PRECISO

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É PRECISO
DIZER
QUE
FOI
INVASÃO
POR KAÊ GUAJAJARA

Página 9: Na conjuntura colonial, visando integrar as identidades

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Na conjuntura colonial, visando integrar as identidades
étnicas da identidade brasileira, o Estado operou juridi-
camente com o conceito de categoria transitória para
os indígenas. Tal compreensão questionava a humani-
dade dos povos originários, assumindo-os como primi-
tivos, e foi a partir de entendimentos como esse que
se instauraram políticas que conduzissem os indígenas
a abandonar suas identidades originais. Com o tempo,
os povos indígenas deveriam ser civilizados, após sua
submissão à política paternalista e tutelar.
A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) nasceu aliada a
esses interesses, criada a partir do mesmo órgão que
serviu ao genocídio dos povos originários, o Serviço de
Proteção aos Índios (SPI).
Não é difícil perceber que esse órgão, em praticamente
toda a sua existência, serviu e serve ao governo majo-
ritariamente racista, e nunca diretamente aliado aos
povos originários e aos seus interesses. O que acon-
tece é que as políticas estão oferecendo apenas miga-
lhas e jamais a autonomia, com respeito à identidade,
enquanto criam políticas que flexibilizam a invasão por
garimpeiros, fazendeiros e madeireiros.
Tanto não há respeito à identidade indígena, que se tem
notícias de que a Funai inseriu itens culturais, como o
cocar, em povos que antes não tinham esse objeto nas
suas vivências diárias. O mesmo aconteceu com o Toré.
Mas por que a Funai faria isso? Bem, para criar critérios
que construíssem uma identidade indígena homogenei-
zada, resultando em uma classificação padrão, mesmo

Página 10: sabendo da existência de diversos povos indígenas, cul-

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sabendo da existência de diversos povos indígenas, cul-
turalmente diferentes.
Isso sem falar da criação de uma figura folclórica que
é o “Índio”, em que a palavra carrega uma conotação
ideológica muito forte, atrelada ao período colonial.
Afinal, é a Fundação Nacional do Índio e não do Indígena.
Também precisamos lembrar dos 305 povos étnicos e
das 274 línguas indígenas faladas no Brasil e que essas
identidades, apesar de toda a complexidade que as atra-
vessa, não adotam exclusivamente para si a identidade
nacional do brasileiro, uma vez que possuem as pró-
prias, e lutam para mantê-las vivas, mesmo com todo o
esforço do Estado brasileiro em destruí-las e apagá-las.
Eu não sou brasileira, não sou filha dessa pátria que me
genocida, que me apaga, me humilha e que me quer
morta ou padrão.
Quando alguém tenta deslegitimar minha identidade
com base no que o Estado criou para me identificar,
penso que estou acordada diante dos muitos que dor-
mem no coma da visão colonial.
Dizem que descobriram, que inventaram, que criaram,
que são os donos dessas terras, mas isso não está certo.
É preciso dizer que foi invasão, que houve violência,
estupro, assassinato e que eles ainda não pararam.
Eles ainda continuam sem demarcar as nossas terras,
tomando-as para si.

Página 11: Eles continuam propagando mentiras e narrativas que

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Eles continuam propagando mentiras e narrativas que
servem para fomentar o racismo estrutural e o apaga-
mento dos povos, para continuar trabalhando em cima
de nós como se fôssemos meras fantasias do folclore.
O indígena não mora mais exclusivamente na mata, em
ocas, não anda pelado, não se pinta e não usa cocar o
tempo todo. Sim, estamos nas matas, nas aldeias, nos
campos, mas também estamos nas cidades, nas fave-
las, nas construções. Usamos celular, vestimos roupas,
consumimos, falamos o português... Mas nada disso
nos torna menos indígenas.
Também não podemos esquecer que a nossa presença
na cidade é fruto da colonização. Não é uma escolha. É
sobrevivência. E mesmo na cidade, de qualquer lugar,
devemos continuar fazendo a nossa luta, pois a colo-
nização continua avançando sobre os nossos corpos.
Minha experiência sobre isso é a seguinte: tenho rece-
bido ataques como difamação, calúnia e deslegitimação
da minha identidade por aqueles, alguns inclusive indí-
genas, que alegam que eu não sou Guajajara, pois não
nasci em território demarcado pela Funai e, também,
porque a aldeia onde faço a minha luta hoje, no Rio de
Janeiro, não é demarcada pela Funai.
Atualmente, há uma disputa de narrativas acontecendo que
não acolhe tudo o que ocorreu com os povos originários.
De um lado, há os que, como eu, não vieram de ter-
ras indígenas demarcadas e que sofrem diariamente
com as consequências da história. Do outro, há os que

Página 12: defendem que todos os povos indígenas estão e sempre

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defendem que todos os povos indígenas estão e sempre
estiveram nessas terras.
Apesar de todo o território brasileiro ser tradicional-
mente terra indígena, a luta de hoje não está pedindo
que todo o território seja demarcado. Atualmente, a
Funai reconhece 672 terras indígenas. Delas, 428 são
regulamentadas e 12, homologadas. Outras 36 são
reservas e não passam pelo processo de demarcação.
Isso quer dizer que o Brasil tem aproximadamente 200
terras indígenas “esperando”, as quais não estão livres
de conflitos e são submetidas à violência do Estado, de
garimpeiros, madeireiros, mineradores, fazendeiros, etc.
Isso sem falar de muitas terras que eram tradicional-
mente indígenas e que foram tomadas a tiros, outras
com correntões, e que dizimaram muitos povos indí-
genas, como aconteceu com os Jumas, por exemplo.
Nos anos 1960, houve um massacre patrocinado por
comerciantes de sorva e castanha no município de
Tapauá que matou pelo menos 60 indígenas, deixando
apenas 7 Jumas vivos, que conseguiram escapar e aban-
donaram suas terras.
Não podemos esquecer que o último Juma, Aruká, mor-
reu este ano (2021) de COVID-19.
No Brasil, há vários cenários como esse, inclusive o da
minha família, que passou por muita violência, escra-
vidão e estupro em Seringal e fugiu, buscando exclusi-
vamente por sobrevivência.

Página 13: Parece-me estranho exigir que um indígena venha de

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Parece-me estranho exigir que um indígena venha de
uma terra demarcada se o órgão responsável não está
interessado em realizar as demarcações e se há toda
uma história anterior de povos que tiveram que aban-
donar suas terras para não morrer.
Para efeito de visualização da gravidade da situação, é
importante dizer também que o governo federal não
homologou nenhuma terra indígena, nos anos de man-
dato da gestão atual (2019-2022).
Isso sem mencionar as flexibilizações da lei promovidas
em prol da exploração ilegal das terras indígenas, os
comentários racistas e ofensivos corriqueiros nas falas
oficiais e os ataques sistemáticos aos direitos dos povos
indígenas consagrados na Constituição de 1988.
Definitivamente, são tempos de luta.
Penso que as Artes, de forma geral, são grandes aliadas.
Em minhas letras, por exemplo, procuro trazer reflexões
em tom de denúncia, que ajudem na descolonização
do pensamento e da vida, não só do indígena, mas das
relações praticadas em sociedade.
Também existe o fator da identificação, visto que é
transformando em arte, dando a forma de palavra aos
sentimentos e às vivências que se faz ecoar no outro, no
próximo. É por isso que a arte é tão forte e ameaçadora
aos governos: ela distribui informação, gera consciência
e traz visibilidade.

Página 14: É exatamente esse tom de denúncia e de visibilidade

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É exatamente esse tom de denúncia e de visibilidade
que a Jéssica conseguiu promover em A pele da pitanga,
resgatando elementos da cultura, da história e do ritmo
indígena, para falar sobre os processos de urbanização,
expor denúncias e mexer em feridas antigas.
E, é claro, com um cheirinho de primavera!
De flores e folhas novas!
Para finalizar, queria dizer que acredito que o ideal da
democracia seria todas as pessoas ter o direito de viver e
existir. Por isso, luto pela demarcação, pelo território, por
políticas públicas aliadas aos interesses indígenas e pela
reparação histórica, não só a nós, mas a todos aqueles que
até hoje sofrem com as consequências da colonização.
Eu acredito num futuro que para mim é ancestral. Sem
corrida pelo ouro, sem buscas coloniais, sem brigas e
sem intrigas, que muito tem a ver com tudo o que acon-
teceu neste país.
Eu acredito que um dia as feridas possam sarar e que
seremos capazes de nos importar com aquilo que
somos, com o solo que pisamos, com as sementes que
plantamos e com as raízes que nos unem por dentro
da terra.
O Brasil veio depois de nós.

Página 15: Página 15

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Página 16: Página 16

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Página 17: ADVÉRBIO

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ADVÉRBIO
Para Belise Campos
a palavra é avermelhada
talvez carnívora e pouco reflorestada
vale mais extirpada
da terra do âmago
e do ventre esmirrado dos homens
a palavra é servida crua e explorada
ao pé de mesas de pau-brasília
maracutaia estripada
estrupício estropiado
solimões, urucum,
cachaça de jambu
colorau guaraná
buriti pupunha
pirarucu tucunaré
a palavra é tinta genocida
e desmancha facilmente o advérbio
pororocas levantando sangue de verbo
jorrando brasis sem modo,
com intensidade, lugar e tempo
e demasiada negação desmatada,
macunaíma desvairada.

Página 18: ÚLTIMAS NOTÍCIAS

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ÚLTIMAS NOTÍCIAS
a terra vai se rebelar
“as florestas precisam ficar em pé”
diz cacique Raoni
carnaval de pandemia
tem praias cheias,
vejam fotografias
: tambaba guarita tabatinga
imbé moreré tupé
curuípe xangri-lá camburí
maracajaú taipu embaú
a doença não existe
afirma turista no litoral sul
funai é ruralista
Aruká, último do povo Juma
morre vítima da pandemia
em Xingu ação de imunização
na base Diauarum
campanha antivacina nas aldeias
preocupa liderança indígena
turismo cai
banhistas batem recorde
trocam blocos por praias lotadas
evitam máscaras e
não massacres

Página 19: “quando a árvore fica em pé,

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“quando a árvore fica em pé,
faz sombra e fica frio
faz sombra e fica frio”
fica frio
nadar nadar nadar
e morrer na praia na praia
e nada e nada
aglomeração piara
futuro incerto paira sobre vidas
e idas à praia à praia
pegar jacaré genocídio
presidente de biquíni
topless
e morre o índio

Página 20: MAMA NA TETA DA MATA

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MAMA NA TETA DA MATA
quem desmata
mata não só a mata
mata e ninguém fala
mata e o estado cala
matam a mata
matam à bala
a boca brasileira cala
a cara brasis nata

a boca branca bebe e
mama na teta da mata
a boca branca mata
e mama na teta da mata
mata e mama
na mama da mata
mama e mata
— é mamata

Página 21: ALUGA-SE

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ALUGA-SE
a terra era indígena
a construção foi escrava
só a placa que é branca

Página 22: IBIAPINA

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IBIAPINA
no ibi há Macaba
Emburi Indaiá
Guirá que pia
não é só sabiá
: tem Jacu Macuco
Maritaca Tangará
vida com mais potira
se não fosse Ibiapina
é uma pena é uma pena
a Ibiapina a Ibiapina
a Ibiapina

Página 23: RADICAL

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RADICAL
só há terra indígena
tudo é do índio
palavras são do índio
terra é do índio
canto é do índio
brasil é do índio
ídios- não há
só há índios
indioleto indioma
indílios indiovidual
indiolatria indiotipo
: tudo é índio-

Página 24: NÃO É UM CANTO, É UM LAMENTO

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NÃO É UM CANTO, É UM LAMENTO
criam boi em terra indígena
plantam soja em área ilegal
desmatam até a última pena
tiram o couro do solo animal
é uma pena é uma pena
é uma pena, um vendaval,
um coro, um lamento de aves
no desmatamento tropical
ararajuba arara arapapá
japim japu juriti-pupu
saurá suiriri surucuá
udu urubu uirapuru

Página 25: PRELÚDIO

23
PRELÚDIO
ameríndio — incêndios
genocídio — negócios
além de rimas, vítimas
prelúdio para o fogo.
o rogo o rogo o rogo
ayuru amary amapá
aguapé anamí inajá
macaúba maniva ubá.

Página 26: GARIMPO

24
GARIMPO
é só soja e boi

soja e boi

soja e boi
é a logo é a logo é a logo

garimpo ogro

garimpo ogro

garimpo ogro
ogro é o agro é o agro é o agro —



negócios

Página 27: O AGRO É POP POP POP

25
O AGRO É POP POP POP
a indústria riqueza do país
não é agro não é gado
não é cana não é milho¹
: é conto para boi dormir
cenas de apologias semifeudais
escravidão, herança colonial
dos filhos da p***pátria
dos sacanas, jamais em cana
plantam pobreza pelo povo
para produzir patrimônio
posse propriedade privada
para patrão
— picuinha da pecúnia
________________________________
¹o milho pipoca
é moeda que sufoca
o agro só é pop
_/﹋\_ se ser pop
( ͡° ͜ʖ ͡° ) for ser pop pop pop
<,︻╦╤─ ҉ - - - pop pop
_/﹋\_

Página 28: NHE’ENG

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NHE’ENG
próprio,
privado,
pessoal
nhenhenhém
ídio- ídio -ídio
é idiotice
: nhe’eng nhe’eng nhe’eng
xiu!
é tudo do índio

Página 29: AUTÓCTONES

27
AUTÓCTONES
o Brasil não é o rio
de janeiro a dezembro
já diziam os nativos
Kara’iwa Oka
cari.oca
casa de branco
Kajaíba Juruá
Pariwat Peró Kirahi
Kupen Napëpë
estrangeiro inimigo
cabelo com boca europeia
o outro que não pertence
o Brasil não é branco
está embranquecido

Página 30: "ÍNDIO"

28
"ÍNDIO"
um "índio" não
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
não é um índio.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.
é um xingo.

Página 31: O ÍNDIO DO GRINGO

29
O ÍNDIO DO GRINGO
Para Edivan Fulni-ô
o índio do gringo
é um restingo é um
restingo um restingo
é um episódio é um
episódio um episódio
é um lingo lingo é um
lingo lingo um lingo lingo
é um Ilídio é um
Ilídio um Ilídio
é um pingo é um
pingo um pingo
é um assédio é um
assédio um assédio
é um xingo é um
xingo um xingo

Página 32: ÍNDIO INDO FINDO

30
ÍNDIO INDO FINDO
funai indo ditar
quem é que é o índio
quem é que não é índio
que que quer o índio
o índio indo deitar
indo deitar o índio
caripunas jumas
ofaiés caetés
suruís cujubins
naruvotus sirianos
ajurus acuntus
quem é que é o índio
quem é que é o índio
tremembés tapirapés
carajás camaiurás
guaranis guajajaras
pataxós potiguaras
macuxis maxacalis
funai indo deitar
indo deitar o índio
o índio o índio indo
indo índio indo findo

Página 33: APAGAMENTO HISTÓRICO

31
APAGAMENTO HISTÓRICO
Para Kaê Guajajara
<•>•<•><•><•><•><•><•> <•>•<•><•><•><•><•>
ocultam origens
de todos os povos originários
aborígenes autóctones
ameríndios nativos indígenas
palavra
“índio” gene —ralista
guajajaras guaranis pataxós tuxás matis macuxis
kaê yakuy
suyhê yacunã
tumë yara
tantas etnias e tantos tons e etnias
<•>•<•><•><•><•><•><•> <•>•<•><•><•><•><•>
mas
: chamam de pardos para embranquecer
apagar enfraquecer para não saber
a cor da violência é uma
: branco corretivo

Página 34: LÍNGUA BRASILEIRA

32
LÍNGUA BRASILEIRA
atualmente as principais
línguas nacionais são
1. tikuna
2. guarani kaiowá
3. kaingang
4. xavante
5. yanomami
6. guajajara
7. sateré-mawé
8. terena
9. nheengatu
10. tukano
11. kayapó
12. makuxi
antigamente
marquês de pombal
proibiu o uso e ensino de tupy
principal língua — brasileira
depois decretou o português
como língua oficial
política pombalina permitiu
maior domínio sobre brasileiros
por colonos brancos
é por isso que no brasil
hoje se fala o português
e não os idiomas brasileiros

Página 35: AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL

33
AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL
o desaparecimento das populações originárias
se deu basicamente por quatro fatores:
1. a dizimação promovida por colonizadores;
2. as doenças europeias espalhadas como epidemias;
3. a miscigenação racial e,
principalmente,
4. a perda dos valores e da identidade
indígenas ao longo
dos séculos.
Todos os fatores (1,2,3 e 4)
têm um único
denominador comum:
o branco-
centrismo¹
____________________________
¹ __)),
//_ _) / “Não temam!
( “\” \ EU cheguei para
\_-/
SALVAR!”
,---/ ‘---.

Página 36: MILHO NA TERRA CRESCE CRESCE

34
MILHO NA TERRA CRESCE CRESCE
grão deixado que
terra fecundou
cresce ao acaso
de ocaso em ocaso
no solo sagrado
céu vai indo
céu vai vindo
pilão pulando
e
: milho na terra
cresce cresce
o milho baila
indo e vindo
indo e vindo
alimento sacro
elo entre a
resistência da
existência
afroindígena
onde o trigo
~ nobre
não vinga
e choraminga
é preciso
separar o
joio do milho

Página 37: angu ugali fufu

35
angu ugali fufu
munguzá acaçá
pamonha kanzika
fubá aluá pï’poka
pixé buré tsadaré
mbyta ki’rera gãr grã
protetor dos corpos
desprezados discriminados
diferentes
iguais
duro doce dentado
mole roxo vermelho
azul colorido
zea mays
abati mielies milho
cura dos males
— da pele
prosperidade
fertilidade
sobrevivência
luta
milho na terra
cresce cresce
cereal, ceres
seres
vida

Página 38: PATÓGENO

36
PATÓGENO
a mancha-branca-do-milho
espalha-se pela plantação
massacrando o milharal
grão por grão vermelho
olho por olho cereal
como sarampo gripe varíola
tuberculose febre amarela

a mancha-branca-do-milho
espalha-se pela plantação
aponta a patogenicidade
pantoea ananatis e
phaeosphaeria maydis
na planta do abati
auati avati zea mays
oportunistas posteriormente espoliam
sobre a mancha-branca-do-milho
espalhando-se pela plantação
epicoccum nigrum, pithomyces chartarum
leptosphaeria sacchari, cochliobolus geniculatus
alternaria alternata, glomerella graminicola
aumenta nas lavouras
propagação proposital
em milhares de milharais
para fins rurais.



— há virulência

Página 39: CAUSADOR DE DOENÇAS

37
CAUSADOR DE DOENÇAS
viam o milho
com maus olhos
— causador de doenças
antas tantas
venta e levanta
tantas certezas→sentenças
_ - _ cada um vê
_; _ - _ no dilema
_, ; o problema
, e a cisma
_ - que carrega
em si a esmo
heroísmo
egoísmo
————— racismo

Página 40: REDENÇÃO DO CAN

38
REDENÇÃO DO CAN
três gerações
: avó negra
mãe mulata
pai e
filho
brancos
mãos erguidas
para o céu em
agradecimento
busca pelo embranquecimento
através do véu
dissolução
das raças
está longe
de redenção
é outro crime
de colarinho
branco
violência
e violação
da vida
velados

Página 41: enquanto

39
enquanto
peu peu peu
vela-se
o corpo
não-
europeu
o caminho
da emancipação
não é hibridação
miscigenação
—— extinção
é a reparação
da desigualdade
racial
libertação de
qualquer
ideal eugênico

Página 42: MISOGENIA

40
MISOGENIA
população
brasileira bastante
divergente
amarelos brancos
pretos pardos
indígenas
mostram pesquisas
brasileiros pre—dominaram
ancestralidades europeias por parte de pai,
ancestralidades africanas e ameríndias
por parte de mãe,
violação em odisseias.
população
brasileira bastante
condescendente
padrão sexual masculino da etnia
do homem branco colonizador
muito além de qualquer teor
de miscigenação
genes de misoginia

Página 43: MÃE GENTIL

41
MÃE GENTIL
mãe gentil brasileira
dos filhos do solo
da terra mais garrida
dos campos mais bonitos
dos bosques com mais flores
é a mãe gentil
mãe gentil
mãe gentil
brasileira
dos filhos das flores dos filhos do fruto
dos filhos do solo
dos filhos das dores
é raiz chamada brasileira
índia negra mulata cariboca
a nação é mestiça o pai branco
fecundou a terra em geral pela força
gerou descendentes por defloramento
mãe gentil
mãe gentil
mãe gentil
palavra que ecoa sem decência violência nacional
descendentes do
estupro — raiz da
democracia racial

Página 44: NÃO HÁ PERDÃO

42
NÃO HÁ PERDÃO
as vidas indígenas têm sido perdidas
e para isso não há perdão
lideranças e anciãs e anciões e crianças
governo federal em ações tardias e sem eficiência
motivações às invasões
de terras apoiadas pela
presidência indigenista
aumenta a presença de
garimpeiros grileiros madeireiros em aldeias
período pandêmico
índios infectados
casos confirmados
extermínio extra
violações aos direitos
negativa do governo
funai envolvida

lideranças e anciãs e anciões e crianças
implementação de mais de mil mortes
medida inconstitucional
golpe do estado federal

Página 45: MATARAM MAIS DE 60 PELA SORVA

43
MATARAM MAIS DE 60 PELA SORVA
povo juma foi
demasiadamente dizimado
por evitar contato civilizatório
por proteger seu território de invasão
comerciantes provocados
pela ideia de fortuna
e com dinheiro arrecadado
contratam expedição pra tomar a sorva
da aldeia da região
índios à sova à sova sobra sova sobra sova
pela sorva pela sorva soberba soberana
estorva e cava cova e cava cova e
cava cova
por riqueza assunto caiu em oblívio
estado astuto e sovina grita
é uma ova é uma ova e desova e cava cova
e cava e cria cova e desova
agora índios indo
à sova indo à sova
e sobra sova e sobra sova
pela soja pela soja

Página 46: CADUCA-NAÇÃO

44
CADUCA-NAÇÃO
prometem o progresso da nação
como se fosse proporcional
ao desmatamento e destruição
da reserva legal rural
mas
nenhum país virou potência
explorando e exportando grão
os filhos da pátria precisam
de mais ciência e educação
— e não caduca-nação

Página 47: [$̲̅(̲̅50)̲̅$̲̅]

45
[$̲̅(̲̅50)̲̅$̲̅]
Para Roger Moreira
filhos da mátria não
são tudo tudo
filhos da pátria
filhos do puto
o estado o estatuto
o status do produto
o tributo o viaduto
o corrupto astuto
tudo tudo
filho do puto
só o fruto que não é
filho do puto
fruto é filho
da folha
filho da
mãe-terra
em luto

Página 48: NAINECÜ

46
NAINECÜ
floresta é coberta
verde-bandeira da terra
de cima até parece
tudo meio igual
mas só quem é de
dentro sabe
qual que’é qual
patauá jatobá pamá
bacuri apuí capinuri
andiroba taniboca sorva
ucuuba açacu embaúba
floresta é coberta
verde-bandeira da terra
kajaíba juruá
pariwat peró kirahi
kupen napëpë
ibiapina tanta
que pindorama
finalmente foi
~ descoberta

Página 49: NOTA

47
NOTA
tchawü¹,
poene, tchi’, türüne,
carü, aura, ivira, yure, bübüri, tcha’,
omawa, owü, tü’, te’ra, tche’e, arupane, ocayiwa,
ngau’tü, tchi’ã, cauta, de’ma, ngetchi, witchi, tauwe, ca’,
tcha, barü, ngape, murumuru, morü, dü, borua, itauwa,
nhomane, towari, cumatchiwa, yaneruba, tchare, cupawa,
wocapurana, tchutchuwatcha, yomeru, aru, yura, peyü, uatchiwa
copumuri, tchowaria, mulateiro, coquita, matamatá, seringueira,
anauirá, castanha-de-macaco-, envireira, marupá, maçaranduba,
taniboca, embaúba, anani, cedrorana, sucupira, acapu, louro, cedro,
ucuuba, açacu, capinuri, nanarana, mapati, jutaí, manixi, sorva,
uixi, araçá, pamá, araratucupi, cupuí, paxiúba-barriguda, caranã,
urucuri, parauá, bacaba, itaúba, carapanaúba, pau-d’arco,
paracuuba, andiroba, cicantã, chuchuacha
copaíba, acapurana,
avaí, taperebá,
tururi-vermelho
pixiubinha
buriti
mulungu
samaúma
guapuruvu
angicó - caá
___________________________________________________
¹derramam
sangue urucum
arrancam terra-mãe pela raiz
silenciam cantos um por um
matam e cortam a mata-país
porque floresta vale mais
como cifrão solo lenha tora
grão gado papel e nota

Página 50: SAGA ASSASSINA

48
SAGA ASSASSINA
corta mato
raspa terra
seca flume
cria gado
planta soja
mata índio
aquece
polui
adoece
degrada
o agro é
kótita
ipió
çuçô
o agro é sujo
mentiras, mentiras
namím!

indústria da
palavra —
ou da falta
dela
—— iátó, iátó
agro!

Página 51: TORRA TORA

49
TORRA TORA
ora-ora ora-ora
não é de agora
o agro é ogro e
demora derrama
gora e jorra tora
derrama rama e
torra e rouba flora
e fauna chora e
ora-ora ora-ora
o agora mata
o agro mata
mata a mata
mata o mato
mata a mátria
mata o ato
ora-ora ora-ora
o agro é pátria
e demora gora
e jorra tora
torra tora torra
tora torra tora
e ora

Página 52: ERVA DANINHA

50
ERVA DANINHA
nativa europeia
hera da terra
erva daninha
angiosperma
trepadeira
glechoma
hederacea
sugadora
crescem sem
capacidade de
se sustentar
para
ascender
necessitam
de suporte
sobem solo
sugam seiva
secam selva
surram seio
seio de mãe-terra
ficam raízes
em área
roubada
ou

Página 53: : ervas danadas

51
: ervas danadas
espalham-se
soltas pelo solo
criam competições
água nutrientes e
luz solar
incômodo
há milênios
atrapalham plantações
enquanto
plantas nativas
murcham e morrem
adubam a ancestrais
estrago gigantesco
maior do que mil e cinco
naufrágios
ou todas
as caravelas

Página 54: RITMO INDÍGENA

52
RITMO INDÍGENA
toca canta dança mas eles têm
certeza plena música indígena
sem harmonia nem melodia

agogô caxixi catacá curimbó tacapú maracá
“não é arte é gemido e
choro gemido e choro”
então
geme caxixi geme caxixi
chora curimbó chora curimbó
geme caxixi geme caxixi
chora curimbó chora curimbó
geme caxixi chora curimbó
chora curimbó geme caxixi
geme caxixi chora curimbó
chora curimbó geme caxixi
geme caxixi geme caxixi
geme caxixi chora curimbó
geme caxixi chora curimbó
geme caxixi geme caxixi
geme caxixi chora curimbó
chora curimbó chora curimbó

Página 55: samba em língua

53
samba em língua
juruna é música
juruna é música
juruna
axé em língua
baré é música
baré é música
baré
rap em língua
tupi é música
tupi é música
tupi
forró em língua
ingarikó é música
ingarikó é música
ingarikó
funk em língua
mundurukú é música
mundurukú é música
mundurukú
música em língua
indigena é música
indigena é música
indigena
música indígena
em qualquer língua
é música indígena

Página 56: A QUEDA DO CÉU

54
A QUEDA DO CÉU

subiram florestas

de concreto e

construções

sobre o solo sagrado

levaram o céu

e ninguém viu

o céu caiu

foi queda

depois

aterraram com asfalto

agora

é impossível

tocar a terra

com os pés descalços

só há chão

a bolha de concreto

cresce e engole terra

a folha da samaúma

chora e cai no chão

a bela arara vermelha

chora e cai no chão

a casca da cigarra

piranga chora e cai no

chão a seiva urucum

pinga chora e cai no

chão chão chão chão chão chão o chão
não tem mais cheiro de chuva e cheira a concreto
cimento e construção caminham olhando para baixo
mas perderam a visão vagueiam e ninguém vê a vida
a ferida o sangue da floresta da samaúma da arara
vermelha da cigarra piranga da seiva ucurumo sangue
sagrado derramado espalhado pelas veias do extrato
terrestre matéria mineral húmus argila indígena rocha-
mãe.

Página 57: LÁPIDE¹

55
LÁPIDE¹
sem

pre
vol

te
e duvide
to
do
pré
dio
passado
e po

ema
é sem

pre
uma

pide
_______________________
¹ do latim lapis, -idis. “pedra”

Página 58: EPITÁFIO DA FOLHA

56
EPITÁFIO DA FOLHA
todo esquecimento se enraíza
na terra e nos vasos de tantas
veias e vidas perdidas
o mundo se vai
enterrado em notas frias
de dólares em euforia
bilhões e bilhões
e bilhões de folhas verdes
soterradas por vento
em um epitáfio pífio
: regenerando solos
entre urras e ternuras
da pulsão belicosa
homens sem rostos
buscam uma glosa
que justifique
“uma árvore tomba
mas sobra o pinho”
(ela se vai e leva consigo
mais do que a própria sombra)
enquanto comem torrão
e mastigam tostão
como se não existissem
os nossos filhos

Página 59: ESPELHO OFUSCANTE

57
ESPELHO OFUSCANTE
terras em troca
é uma ova é uma
ova é uma cova
índio não quer
espelho nem
apito nem
chocalho nem
nhenhenhém
todo indígena já
conheceu a crueldade
do homem
explora e exclui
e explora e
agora?
a floresta acabou
a chama apagou
o povo sumiu
a noite esfriou
o espelho
rachou
o velho esfarrapado do rosto pintado
chama curumim e cunhatã
todo dia e toda hora é dia
todo dia e toda hora é hora
de retomada

Página 60: NINGUÉM É IRACEMA

58
NINGUÉM É IRACEMA
Para Yacunã Tuxá
apenas a mensagem é selvagem:
ninguém é iracema passiva




submissa




erotizada
a visão colonialista
atrasa a autonomia




indígenas não andam




seminuas com pinturas




e cocar de penas




na cabeça
entenda,
identidade
não é acessório e nem acessória
fora da aldeia
em território urbano
dentro da cidade



permanece indígena



vestindo camisa de pano



sandália saruel



short ou saia

Página 61: INDÍGENAS URBANOS

59
INDÍGENAS URBANOS
indígenas urbanos buscando
sobreviver entre toneladas
de asfalto pesado
municípios e edifícios
inteiros levantados
sobre tanto tanto tanto
sangue derramado
memórias petrificadas
de filhos e pais em toda silhueta
das capitais

Página 62: EM TODAS AS PARTES

60
EM TODAS AS PARTES
convenções sociais
delimitam identidade e
modo de vida indígena
tribo selvagem cocar
penas floresta espelho
escambo apito chocalho
e tanga
já chega!
indígenas estão
em todas as partes
nas matas nas aldeias
nos campos nos cerrados
nas favelas nas cidades
contrariam estereótipos
caricatos criados pela
visão colonial
além da aparência
o corpo indígena carrega
toda a história de
um brasil patriarcal
o corpo indígena é resistência
ultrapassa o passado
sobrevive luta reestrutura-se

Página 63: e faz sobreviver a verdadeira

61
e faz sobreviver a verdadeira
essência nacional
o índio do gringo
é só um pingo
indígenas estão
em todas as partes
nas matas nas aldeias
nos prédios nos estúdios
nos edifícios nos bares
nas favelas nas cidades
nas ruas nas universidades

Página 64: GENOC→ÍNDIO

62
GENOC→ÍNDIO
em mil e quinhentos
população indígena
três a cinco milhões
→ cem por cento
cento e
cinquenta anos
depois
setecentos mil
na metade do século
vinte
cento e cinquenta mil
em dois mil e vinte
saga assassina ainda
assassinos sagaz
em quinhentos anos
filhos deste solo
caíram
do peito ao pleito
e à morte própria
de cem por cento
para 0.42%
→ menos de
meio por cento
tragédia na proporção
sem proporções
de cem por cento
para quase sem

Página 65: SUIC→ÍNDIO

63
SUIC→ÍNDIO
morte voluntária
consequência
da existência
em luta diária
falta perspectiva
identidade tutelada
falta alternativa
comunidade abalada
vida dividida
tradições culturais
indígenas
urbanizações tais
terrenas
violência autoinfligida
falta terra demarcada
ausência ameaça
diversidade nativa
→ suicídio entre
povos originais
chega até três
vezes mais

Página 66: REBENTOS AO RELENTO

64
REBENTOS AO RELENTO
frutas
dizem tchau
enquanto passam
e pingam do pau
okay okay
okay o fruto
c
a
i babau
mas frutas
não maduras
estão em urras
frutos de
quinhentos anos
em surras
pela chuva
pelo vento
pela mão do sedento
que suga e
enxuga o pé
quando não
é
abscisão abscisão
é abscisão

Página 67: oh,

65
oh,
rebentos ao relento
rebentos ao relento
rebentos ao relento
por que laranja cai do pé?
por que limão cai do pé?
por que pitanga cai do pé?
por que jabuticaba cai do pé?
oh oh oh é alimento
pra jabuti jururu
e
praticamente

Página 68: SÍNDROME DO BOM COLONIZADOR

66
SÍNDROME DO BOM COLONIZADOR
a mão portuguesa
deixada de herança
estende-se pela gleba
e pela mata
como a chama se alastra
em derrubada
pelos solos solitários
da terra sequestrada
chimpam a chibatada
e chamuscam o chão
chamam de chamego
pregam que é progresso
mas nada mais é do que
o próprio inverso
chamego é chamiço
o sumiço do submisso
opresso em chancela
uma queimada quinhentista
de quase cinquenta hectares
amazônicos
— a dívida jamais
será quitada: é mais
provável que vire quitanda

Página 69: PROTEJA OS NOSSOS ÍNDIOS

67
PROTEJA OS NOSSOS ÍNDIOS
Para Mirindju
a placa fincada com recursos públicos
nos limites da aldeia
diz
proteja

os nossos

índios
nossos?
índios?
nossos índios?




o estado se acha dono
mas
o povo indígena
não tem dono
o povo indígena
é dono

o próprio estado
é o culpado


pelo garimpo


pelo genocídio


pelo suicídio


indianista


higienista


indigente

Página 70: REALIDADE CONCRETA

68
REALIDADE CONCRETA
indígena não tem que
viver preso à história
nem recluso em flores
tas sem aprender o por
tuguês o que já aconte
ceu não permite revés
ah, sem eira nem beira
nem a priori indígenas
não são figuras do folk
clore da nação e socie
dade
brasileira
indígena
não está nenhum pouco
disposto a aceitar o lugar
que é posto de direitos
e
espaços
negados
seja
nas
universidades
merc
ado de trabalho e nas
mil e uma artes

Página 71: ARCO E FLECHA

69
ARCO E FLECHA
ilês ele ela
indígena
que mora
na favela
não mora
na aldeia
mas leva
a ideia e
eleva a
aldeia
a veia
cheia
etnia
indígena
que mora
na favela
é a aldeia
na veia
indígena
que mora
na favela
é chefia
é guerreiro
é coletivo
é leva
colmeia
alcateia
aldeia

Página 72: A PÁ E A LAVRA

70
A PÁ E A LAVRA
lágrimas nascentes
como igarapés
diante da pergunta
e a palavra o que é?
existe uma lei que é
diferente de toda a lei
: a balança da justiça
sempre pesa em vintém
a herança, o musgo
a vigésima
parte de algo
sujo
vinte réis
criaram
vinte reis
que todo mês
condenam a tez
de novos vinte
réus
e a palavra o que é?
sopé do monte pascoal
maré que trouxe cabral
pontapé da imposta fé
legado do capital-café

Página 73: O HOMEM DO BURACO

71
O HOMEM DO BURACO
abrem as terras e artérias e
irrecuperável a vida vaza
para dentro esgalhando-se
veias e raízes penetrando a
matéria orgânica pedaços de folhas
caules cascas grilos e cigarras
mais fundo que o húmus está o homem
do buraco o último
do seu povo massacrado
por fazendeiros e grileiros
sozinho no meio do mato
resiste como folha que não cede ao inverno desastroso
a única espalhada ao longo do grande tronco da árvore
rapada juntar-se não é opção prefere a solidão já
atravessada por três décadas mesmo sozinho isolado no
meio do mato do bosque do arvoredo da boscagem do
dumo é possível sobreviver sem assentir gentilmente
ao gesto que doma destrói mata agride explora poluí da
cúpula dos culpados que jamais serão punidos
o homem do buraco
é o último guerreiro
da copa dos primeiros

Página 74: GAVETAS DE MADEIRA DA LEI

72
GAVETAS DE MADEIRA DA LEI
enquanto passam a boiada
e a boiada passa
ouvindo histórias
de dormir
em nome do progresso
processos são engavetados
florestas são engavetadas
pessoas são engavetadas
tudo em madeira
da mais pura
privilegiada
espécie
superior
madeira da ~ lei
da terra de ~ rei
ei ei ei ei ei
ipê tatajuba pinus
cumaru teca eucalipto
jacarandá cedro jatobá
ei ei ei ei ei
material de ponta
madeira de lei

Página 75: comercial de alto valor

73
comercial de alto valor
para o reles grei
ei, ralé
fazendo uma
grana branca
apoiados
nas tuas
flancas
— qualé?
a gana grana branca
a que mais espanca calada
a que mais baixa a mata
a que mais mata velada
a mais ofensiva
nociva na ativa
gana grana branca
gana grana branca
alva nívea láctea
caucásia clara cândida
como uma bofetada na cara
que nunca termina em nada
— engavetada

Página 76: ‘YBÁ O-KUÎ YBYRÁ SUÍ

74
‘YBÁ O-KUÎ YBYRÁ SUÍ
frutos da terra
pintando a pele
de vida de cicatriz
de urucum de raiz
jubá tinga
una piranga
em pé de quê?
: de pitanga
pitanga rosa
pitanga roxa
pitanga mato
pitanga branca
árvore porangaba
nativa brasileira
da mata atlântica
inteligente forte
resiliente curandeira
espalhada por cinco
continentes
‘y é rio
yby é terra
ybyrá é árvore
ybá é fruto

Página 77: cai da árvore

75
cai da árvore
mas não cai
longe do pé
cai na terra e
verte-se em fé
em pé de quê?
: de pitanga
o fruto nutre
quando pinga e
a vida sangra
o grito vermelho
y’piranga

Página 78: PELE DA PITANGA

76
PELE DA PITANGA
caminhávamos pelo vazio
sem ter a certeza do que
éramos em essência
feitos de pó de semente
de terra ou de gente
você era os olhos do universo
expandindo-se como uma
pupila no escuro
: disperso
era a boca da brisa
os ombros do oceano
o crânio da chuva
os folículos da folha
a face da floresta
a pele da pitanga
você era eu, era ele
era nós e todas elas
tudo era você
a mão fechada do soco
dado em você mesma
e depois os dedos espadaúdos
dos afagos de desculpa

Página 79: cada árvore caída

77
cada árvore caída
cada aragem manchada
cada água ruída
doeu ou doerá em você
em qualquer idade
ou realidade
porque aqui
tudo o que existe é você
só você
e eu
rotacionando-me no ciclo da terra
do sol do mar do fogo do solo
dos astros e dos antros
: a humanidade
que lhe encara com olhos de quem não crê.

Página 80: Página 80

78

Página 81: SOBRA-SOVA (TRECHO) • 2024

79
SOBRA-SOVA (TRECHO) • 2024

Página 82: ÍNDIOS INDO À SOVA

80
ÍNDIOS INDO À SOVA
INVASÃO É INVASÃO É INVASÃO
SOBRA SOVA SOBRA
SOVA SOBRA SOVA
PELA SORVA PELA
SORVA PELA SORVA
ÍNDIOS À SOVA À SOVA À
SOVA ESTORVA E CRIA
COVA ESTORVA E CAVA
COVA ESTORVA ESTORVO
ESTRONDO ÍNDIO TONTO
ÍNDIO BOBO ÍNDIO
MORTO ÍNDIO INDO
FINDO PARA COVA
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
DESOVA E CAVA COVA
NOVA COVA DOBRA
COVA E DESOVA E CRIA

Página 83: COVA NOVE COVAS

81
COVA NOVE COVAS
NOVOS MORTOS CORPOS
MORTOS CORPOS MORTOS
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
ÍNDIOS INDO À SOVA
INDO À SOVA INDO À
SOVA E SOBRA SOVA E
SOBRA SOVA E SOBRA
COBRA PELA SOJA
PELA SOJA PELA
SOJA PELE À PROVA
PELE À PROVA PELA À
PROVA PELA SOJA
PELA SOJA PELA
SOJA ÍNDIO FORA
ÍNDIO FORA ÍNDIO
FINDO ÍNDIO FERIDO
É DESOVA É DESOVA É DESOVA

Página 84: EXTERMÍNIO EXTRA EXTERMINA

82
EXTERMÍNIO EXTRA EXTERMINA
ÍNDIO EXTERMINA ÍNDIO
EXTERMINA ÍNDIO EXTERMÍNIO
EXTRA EXTRA EXTRA
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
ÍNDIOS INDO A TIRO
PARA A COVA PARA
COVA FOI A COBRA
FOI A COBRA FOI A
COBRA TIROS RIJOS
TIROS RIJOS TIROS
RIJOS ÍNDIOS INDO A
TIRO PARA A COVA
ÍNDIOS A TIROS ATIRADOS
E TIRADOS A TIROS RIJOS
TIROS RIJOS TIROS
RIJOS TIROS RIJOS
EXTERMINA ÍNDIO EXTERMÍNIO

Página 85: É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA

83
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
É DESOVA É DESOVA É DESOVA
NOVA COVA NOVA
COVA NOVA COVA
ÍNDIOS INDO FINDOS
PARA A COVA ÍNDIOS
ÍNDIO A TIROS PELA
SOJA PELA SOJA
TIRO TIRA VIDA
TIRA VIDA TIRA
VIDA ATIRA TIRO
TIRA A TIRO ATIRA
TIRO ÍNDOS INDO
FINDOS INDO FUNDO
LATIFÚNDIO ÍNDIOS INDO À
FENDA PELAS VENDAS
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
É DESOVA É DESOVA É DESOVA

Página 86: SOBRA CORPOS MORTOS

84
SOBRA CORPOS MORTOS
CORPOS MORTOS CORPOS
MORTOS TIRO CRIA
COVA TIRO TIRA
VIDA ÍNDIO GRITA
TIRO TIRA VIDA E
CAVA E CRIA COVA E
CAVA E CRIA TIRO
TIRO CRIA COVA E
DESOVA ÍNDIOS INDO À
DESOVA À DESOVA À DESOVA
CRIA COVA NOVE
COVAS NOVOS MORTOS
CORPOS MORTOS CORPOS
MORTOS MOTORES FORTES
MOTOS SERRAS MOTOS
SERRAS SERRA MERA
SERRA RAMA TRAMA

Página 87: TREMA PEGA TRENA

85
TREMA PEGA TRENA
TERRA TREME TERRA
TREME TERRA TREME
TOMBA TORA TOMA
TORA TOMA TERRA
TORRA TORA TORRA
TORA RASTRO ARRASTA
FOGO ALASTRA FOGO
ESTRALA TOMBA TORA
JORRA TORA JORRA
TORA PEGA TORA
PEGA TORA TORRA
TORA TORRA TORA
BRASA ALASTRA BRASA
ALASTRA BRASA ESTRALA
FAZ ESTRAGO FAZ
ESTRAGO QUEIMA MATO
MATA A MATA CRIA UM

Página 88: FARDO FEDE FARDA

86
FARDO FEDE FARDA
FURA TERRA COBRE
RASTO ENCOBRE RASTRO
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
ORA ORA OLHA A
HORA JORRA TORA
JORRA TORA JORRA
GORA TORRA RAMA
TORRA RAMA TORRA
RAMA ALASTRA BRASA
ALASTRA BRASA ESTRALA
BRASA ROUBA TERRA
PLANTA SOJA NÃO É DE
AGORA AGRO MATA
MATA A MATA MATA A
MATA MATA O MATO
DEIXA O BARRO DEIXA O
BARRO DEIXA BAIXO

Página 89: DERRAMA RAMA DERRAMA

87
DERRAMA RAMA DERRAMA
RAMA DERRAMA RAMA
TORRA TORA TORRA
TORA TORRA TORA
TORO ATORA TORO
ATORA TORO ATORA
ÍNDIO CHORA ÍNDIO
CHORA ÍNDIO CHORA
AGRO ORA AGRO
ORA AGRO ORA
ORA-ORA ORA-ORA ORA-ORA
É UMA OVA É UMA OVA É UMA OVA
É ÓBVIO É ÓBVIO É ÓBVIO
O OBLÍVIO DO ÓBITO O OBLÍVIO
DO ÓBITO O OBLÍVIO DO ÓBITO
RITO CÍVICO RITO
CÍVICO RITO CÍVICO
ATO CÍNICO.

Página 90: • terceira edição

88
• terceira edição
• fevereiro de 2025

Página 91: JÉSSICA IANCOSKI (1996) é escritora,

JÉSSICA IANCOSKI (1996) é escritora,
editora e artista gráfica. Fundadora da Toma
Aí Um Poema, trabalhou na publicação de
centenas de livros e no lançamento de diver-
sos autores. Finalista do Prêmio Jabuti e ven-
cedora do Prêmio Sergio Mamberti (MinC),
tem obras traduzidas e publicadas no Brasil
e no exterior. Atua na interseção entre lite-
ratura, design e novas mídias, explorando
formatos inovadores de publicação e distri-
buição. Atualmente, é curadora do Prêmio
Literário da Cidade de Curitiba.

Página 92: PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUND

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA,
PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL